quinta-feira, 23 de junho de 2011

Presos na língua

Li Aula, de Roland Barthes, na minha graduação. Li com o dicionário do lado, um lápis na mão e um marcador de texto ao alcance das pérolas. Mastiguei e ruminei o texto, fiquei impressionada, mas não garanto que tenha entendido. Eu não tinha maturidade teórica pra entender o que ele dizia quando proferia a sua aula.

Reli Aula faz pouco tempo e fiquei impressionada com as marcas que eu tinha deixado no texto 15 anos atrás. Mas dessa vez consegui deixar decantar melhor as palavras do francês.

"(...) Assim, por sua própria estrutura, a língua implica uma relação fatal de alienação. Falar, e com maior razão discorrer, não é comunicar, como se repete com demasiada frequência, é sujeitar: toda língua é uma reição generalizada." (p. 13).
Em outras palavras, estamos presos à nossa língua materna. Mais à frente:
"(...) Mas a língua, como desempenho de toda linguagem, não é nem reacionária, nem progressista; ela é simplesmente: fascista; pois o fascismo não é impedir de dizer, é obrigar a dizer." (p. 14).

Os estruturalistas se veem presos na estrutura da língua. Se impressionam menos com o que é impossível de dizer numa língua, mais com aquilo que a língua obriga o falante a dizer. Em português, por exemplo, somos obrigados, pela nossa língua, a ser redundantes: precisamos marcar o plural em todos os elementos relacionados ao nome. A marca de plural vai no artigo, no nome, no adjetivo e no verbo. Não quero dizer que Barthes seja estruturalista (esse francês é meio liso), mas afirmações como a que segue são caracterizadoras dos estruturalistas:

"(...) Se chamamos de liberdade não só a potência de subtrair-se ao poder, mas também e sobretudo a de não submeter ninguém, não pode então haver liberdade senão fora da linguagem. Infelizmente, a linguagem humana é sem exterior: é um lugar fechado." (p. 15 - 16).

Igualmente não sendo estruturalista, quero me impressionar com as garras da língua materna. Não conseguimos escapar de interpretar algo que faz sentido em nossa língua. Os meus exemplos são de palavras na língua materna que imediatamente despertam significados, mesmo quando se trata de uma mera coincidência.

Perto de casa (em São Paulo) tinha uma loja de presentes chamada Gift House. Apesar do desenho do presente quadrado com fita e laço, e apesar de saber que Gift House é inglês e significa "casa de presentes", a primeira associação que fiz foi outra: Gift = veneno em alemão. Nunca entrei na loja e passei muito tempo fantasiando as poções e ervas que são vendidas lá. A associação da palavra inglesa com um significado em alemão foi compulsória: não tive escapatória.

Tenho uma amiga que mora numa casa em que mora um menino. Eu já tinha ouvido o nome do guri, mas nunca tinha visto escrito. Quando fui na casa dela, ela me mostrou todos os cômodos. Na porta do quarto do moleque estava escrito, em letrinhas coloridas e alegres: Hassen. Fiquei paralisada diante do nó que deu: Hassen = detestar, odiar (em alemão) estava escrito em cores inocentes.

Quando visitei Amsterdam, participei do free walking tour. O guia era um cara descolado, cheio dos piercings, tatuagens e tinturas. Um dos pontos turísticos que ele sempre mostrava era a menor casa de Amsterdam. Logo em frente à casa havia uma estátua de bronze em homenagem a algum escritor cujo nome (ou nacionalidade) não consigo lembrar. A estátua, apesar de não ter nenhum significado para os turistas em geral, entrou para o roteiro do guia, porque o nome do escritor evocava gargalhadas histéricas de turistas finlandeses. Em finlandês, o nome do homem era algo como "vou gozar".

Apesar do descontexto, o significado vem na língua materna, sem ser convidado.

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