quarta-feira, 23 de março de 2011

O Tempo e o Nada

Michael Ende tem uma vasta produção literária. Li apenas dois dos seus livros de maior sucesso (viraram filme), e reconheço no autor uma espécie de visionário. 

Na História sem fim (Die unendliche Geschichte), a ameaça que preocupa Bastian e Atréju é o Nada. Já imaginou o Nada se instalando nas bordas de Phantásien e aniquilando tudo o que existe? Não se trata de uma desertificação, de um tsunami que atropela tudo, de um vazamento numa usina atômica que devasta tudo ao seu redor. É o Nada.

Em Momo, a protagonista (Momo) precisa salvar o mundo dos senhores cinzas (die grauen Herren). Tudo neles é cinza: da ponta do chapéu à pele. Eles são todos iguais, fumando seus cigarros que queimam tempo. Esse tempo queimado é o tempo roubado das pessoas. As pessoas se deixam pressionar pela ideia de economizar tempo e se transformam em seres apressados, estressados, trabalhando no limite de suas capacidades: máquinas. Os senhores cinzas acumulam esse tempo alheio que deveria sobrar na vida de cada pessoa e usam-no como combustível.

Momo é de 1973 e a História sem fim é de 1979. Não sou capaz de lembrar (minha idade não permite) como era a vida na década de 70, mas aposto que a vida de hoje é mais agitada. Tempo é dinheiro. Mas o que se faz com o dinheiro? Compra-se coisas, não tempo. Especialmente nas metrópoles, as pessoas comem em pé, em movimento, aproveitando o tempo da refeição para fazer outras coisas (como por exemplo ver TV). Vivem atrasadas, presas no trânsito, transitando entre casa e trabalho. Muitos fizeram do carro seu escritório, guarda-roupa, restaurante. O telefone é móvel, as pessoas estão disponíveis o tempo todo - mas não necessariamente dispostas a gastar muito tempo no telefone. O tempo de descanso é reduzido ao mínimo necessário - para a engrenagem não quebrar.

Essas pessoas, administradoras do tempo, se tornam cinzas. Por fora, são acrobatas. Por dentro, não tem nada.

4 comentários:

matiasmm disse...

Sabe, deu vontade de ler. Uma coisa estranha é que muitas vezes não encontro espaço no dia pra isso, leio muita net já há alguns anos e diminui muito a leitura de livros de lá pra cá. Só a noite mesmo e em transportes coletivos dos quais não faço muito uso. Queria andar de trêm e de bonde pra ler, é um dos maiores prazeres que tenho na vida. um bj menina

Juliana disse...

Tenho acompanhado o seu blog e, como tantos outros textos, adorei este. Já conhecia "A história das coisas" e adorei saber que existem outros da mesma série.
Abraços,
Juliana.

iglou disse...

Matias,
os livros não têm pressa.

Juliana,
bem-vinda.

Mônica disse...

Já li História sem fim. Amei. O interessante, para mim, é que, embora Fantasia esteja sendo devorada pelo Nada, o autor instiga o leitor a criar (reconstruindo o reino de Fantasia), com seu bordão: mas isso é uma outra história...