terça-feira, 1 de março de 2011

Ler, escrever e memorizar

Durante muito tempo eu confiei na minha memória de longo prazo e fui inflexível à releitura: não relia nada, porque dizia a mim mesma que já tinha assimilado a obra. Daí reli Cem anos de solidão e passei por uma experiência completamente diferente do que da primeira vez. Além do texto ter outro sabor, percebi que a minha memória apagou muito mais informações do que reteve.

Um dos conundrums de um programa do Philosophy Talk era sobre a leitura e a memória. O ouvinte disse a Ken e John que não sabia mais o que fazer, porque assim que lia um livro, esquecia quase tudo. Cogitou a possibilidade de dar preferência a audiobooks, se a língua falada fosse mais facilmente armazenada na memória. John respondeu que o objetivo da leitura de obras literárias não pode ser a sua memorização, mas passar pela experiência prazerosa de ler/ ouvir literatura.

Eu já sei que não leio pra memorizar. Me acontece várias vezes de conversar com alguém sobre um romance e não lembrar do final da trama, por exemplo, ou perceber que a minha memória simplesmente não registrou passagens memoráveis para o outro. 

Condicionada pela cultura do bilhete, do caderno, da agenda, percebo que a minha estratégia para memorizar não é ler, mas escrever.

Agora que estou lecionando Linguística Geral (novidade pra quem estava dando aula de Texto), estou precisando reler um montão de coisa que li durante a minha graduação (very, very far away). Pra lembrar o que dizer em sala de aula, faço minhas anotações. E enquanto vou lendo, anotando e desenterrando mais textos, vou achando xeroxes ainda não lidos - sobre a memória.

2 comentários:

ogum777 disse...

lou, alguém comentou (e eu esqueci quem) que cultura é o que sobra depois que vc esqueceu tudo o que leu.
o texto não muda, mudam nossas leituras dele. hoje se lê maquiavel de uma forma totalmente diferente do que se lia há 200 anos, por exemplo. como dizia heráclito, o mesmo homem não passa duas vezes pelo mesmo rio. pq então suas leituras seriam iguais se vc mudou? não é só o cabelo que muda. mas falhas de memória só devem preocupar quando esquecemos quem somos.

Evelyn Araripe disse...

Ei Lou!!! Putz, Cem Anos de Solidão está entre os livros que preciso ler novamente para relembrar muitas (boas) coisas que essa minha cabeça esquecida cisma em apagar!

Menina, esse calor de Porto Velho vai acabar fazendo você raspar a cabeça! rs. rs.

Beijossss,
Evelyn