sábado, 19 de março de 2011

10.000 Maniacs

O jornal rondoniense que consultei noticia a revolta dos operários da usina hidrelétrica de Jirau usando rubricas como VANDALISMO, DESTRUIÇÃO e CONFLITOS. Mostra cenas de destruição patrimonial (ônibus incendiados, alojamentos destruídos), incompetência de manejo humano (10 mil homens soltos na cidade, sem ter onde comer, dormir ou tomar banho) e a rodoviária lotada. Não há muito texto, espera-se que as imagens sejam auto-explicativas.

Lendo os outros jornais, não consegui entender muito bem o motivo da revolta dos operários. Os números variam, as causas também. Mesmo assim, quem está aqui não se surpreende com o incidente: a usina era um barril de pólvora. Ontem a Unir foi evacuada porque a BR tinha sido obstruída. A Unir fica a 9,5 km da borda da cidade, a usina fica a 8. Os 10 mil homens foram alojados no Sesi (perto de onde eu morava). O supermercado (onde eu fazia compras) que fica na esquina oposta ao Sesi fechou e seu estacionamento serviu de abrigo para os operários.

A revolta não precisava de um motivo contundente. Os operários tinham sido removidos de outras partes do país pra trabalharem na construção de uma usina que provavelmente não lhes beneficiará. Vieram na esperança de juntar dinheiro e caíram no faroeste que é Porto Velho. A obra não tinha alojamento pra todos (quando eu vim em fevereiro de 2009 pra prestar o concurso, todos os hotéis estavam cheios de homens), aceitava qualquer um e não registrava mortos e acidentados (nas filas de banco e correio vi vários homens mutilados buscando indenização por acidente de trabalho). Os funcionários não recebiam o que tinha sido combinado, não tinham alojamento satisfatório e não recebiam tratamento contra as malárias contraídas nas margens do rio Madeira. Uma discussão com um motorista de ônibus foi o suficiente para desencadear a revolta dos operários.

A polícia (Força Nacional) está sendo mobilizada para conter eventuais atos de vandalismo. São 10 mil homens desempregados, desorientados, desabrigados, famintos e sem nenhum compromisso com a cidade ou seus habitantes que olham pra chuva nesse momento. A imprensa trata quase todos como vândalos. A população tem medo de sair de casa.

Dediquei muitos pensamentos ao nome de uma banda que eu curto pacas: 10.000 Maniacs. A voz de Natalie Merchant canta sobre o deslocamento de grandes massas de homens que vão para um lugar desconhecido, detonam tudo e, com algumas perdas e ganhos, batem em retirada. Nas letras das músicas, garimpeiros e soldados compõem essas massas humanas predatórias. Apesar da banda ser politicamente engajada, seu nome não tinha nada a ver com esses movimentos de pessoas desenraizadas (foi inspirado num filme trash chamado Two thousand maniacs!). 

Mesmo não correspondendo à verdade, a imagem que a mídia passa é que Porto Velho está tumultuada por 10.000 maniacs.

2 comentários:

odir disse...

o q aconteceu, afinal?

iglou disse...

É, demorou a entendermos o que aconteceu.
Retificando: Jirau não fica aqui perto da Unir, essa é a usina de Sto. Antônio.
Jirau fica perto de Jacy-Paraná, outra cidade. Como os alojamentos de lá foram destruídos, 10.000 trabalhadores ficaram desabrigados e foram mandados pros seus estados de origem. Ninguém daqui diz que foram despedidos. Dizem que a empreiteira tem dois meses pra arrumar alojamento pros 10 mil e chamá-los de volta.
Mas se eles voltam ou não é outra estória, porque foram muito mal tratados.