sábado, 22 de janeiro de 2011

Cachorros no trem

No trem de Frankfurt a Darmstadt entrou uma mulher com um cachorro grande. Podia ser um pastor alemäo, mas ela descreveu a raßa com outros nomes. A mulher com o cachorro escolheu um lugar em que dois assentos estäo face a face (näo um atrás do outro) e perguntou pro homem sentado ali se ele tinha medo de cachorro. Achei a atitude dela massa, porque se ela tivesse escolhido o lugar na minha frente, eu teria respondido que super sim.

A mulher näo era pálida, mas era bem sem cor ou contraste. Era velha e magrinha, miúda e as rugas no seu rosto lembravam papel de päo amassado. Ela logo puxou conversa com quem tava olhando pra ela. Deu a idade do cachorro, o histórico, pedigree e tudo mais. Disse que o cachorro dela tinha medo de bêbados. Só que ela mesma parecia um desses pedintes bêbados que säo vistos em esquinas com cachorros grandes.

Outra mulher, conduzindo um cachorro pequeno e branco, entrou no trem. Os dois cäes se estranharam, latiram e me meteram um baita susto. A dona do cachorro pequeno logo pegou o bicho no colo e ficou xingando a mulher do cachorro grande. Passou, foi pra outro vagäo. A mulher do cachorro grande contou pra quem quisesse ouvir que aquela mulher a perseguia. Que era viciada em heroína, que ficava na Kaiserstraße, onde ela tinha que passar sempre pra ir no médico, que toda vez o cachorräo dela ficava com medo, e na próxima vez ela ia denunciar a viciada.

Quando ninguém mais prestou atenßäo nela, ela repetiu tudo pra si mesma. O cachorro adormeceu. Quando parou de falar, ela foi desligando aos poucos. Os olhos foram ficando pesados, as mäos se esqueceram do resto do corpo. Täo devagar como ela desligou, voltou a acender de novo. Nada de movimentos bruscos. Abriu a mochila e parou no meio do movimento. Devagar, o corpo foi pendendo pra frente, o nariz foi se enfiando na mochila aberta. Acordou lentamente com um anúncio do maquinista. Voltou aos poucos à posißäo ereta e disse pra quem quisesse ouvir que estávamos a meio caminho de Darmstadt, que agora só faltavam mais nove minutos. Lentamente, tirou papel e caneta da mochila e voltou a desligar. De braßos abertos, numa mäo a caneta e na outra o papel, foi se dobrando em direßäo aos joelhos. Acordou em Darmstadt. Se a outra era viciada em heroína, essa parecia ser dependete de Duracell.

Um comentário:

ogum777 disse...

hahaha, adorei o ß no lugar da cedilha e a trema no lugar do til! tenta alt + 0231 pra ver se não sai "ç "