terça-feira, 7 de setembro de 2010

Não é simples

Já percebi que sou bastante tolerante pra julgar filmes: um filme precisa ser obviamente ruim, falso ou omisso para que eu o considere ruim. Mas nem todos os filmes são facilmente classificáveis como bons ou ruins. Não é sempre simples assim. Alguns incomodam a tal ponto, que só um estudo sobre o filme (extras do DVD, resenhas de pessoas, conversas com outros) me ajuda a formar uma opinião.
Depois que estreou, passei duas semanas discutindo sobre Fight Club pelo telefone. Tive que ver os extras do Cheiro do Ralo e comprar o livro pra respeitar o filme. Só depois de ler cinco resenhas sobre Das weisse Band é que saquei o filme. Ainda não digeri bem Synecdoche, New York, mas esse é um dos filmes que entra nessa categoria dos filmes que mais incomodam do que qualquer outra coisa. Chegar nessa categoria não é simples. Dogville, por exemplo, é um filme que incomoda pra caramba, mas eu logo soube que tinha gostado dele.
Por indicação da Maíra, me interessei pelo produtor desse filme, Spike Jonze, que dirigiu Being John Malkovich em 1999 (e percebo outra constante: a atriz Catherine Keener no papel de mãe) e Where the wild things are em 2009. Esse último incomoda pela ausência de julgamento que o próprio filme faz sobre a violência numa criança.
O contrário de simples, como aprendi com o Ferrone, não é 'complicado', mas 'complexo'. Em alemão isso é mais fácil de visualizar: simples é 'einfach' = uma faceta; ao passo que 'vielfach' é multifacetado, ou seja, complexo.

3 comentários:

Marcela Bonfim disse...

de fato, não é tão simples mesmo.

bill disse...

Olá Lou,
tudo bem?
Na real eu acho melhor te escrever um email, mas não encontrei o endereço. Vou adiantar algumas coisas aqui. Acompanho com muito interesse o trabalho da patota Charlie Kaufman/Spike Jonze/Michel Gondry. No caso do sinédoque, fui ao cinema com a Mazu, eu com grandes expectativas, ela nem tanto. Ao sair da sala, ela estava maravilhada, enquanto eu muito mau humorado. Fui começar a gostar do filme depois de alguns meses, simplesmente não me saía da cabeça.

Tem um blog que eu acompanho chamado Multiplot. O cara de lá escreveu, sobre o filme:

"Meio difícil dizer que esse filme é ruim. Mas ele é. Ou melhor, não dá pra saber bem. Ele é a coisa mais pretensiosa do mundo, a idéia mais complexa…e também, a mais óbvia, pois todo mundo já deve ter pensado nisso, mas ninguém “fez” nada, não assim. Mas no final, parece um esforço vazio. Talvez esse tenha sido o objetivo do Kaufman e talvez, tendo alcançado, tenha sido perfeito. Não sei…"

Achei engraçado, tem uns ecos do que eu e você achamos ao assisti-lo.

Daí tem o Inácio Araújo, que é crítico da folha, um cara que eu respeito muito. Ele escreveu:

""Sinédoque" é a Torre de Babel de Charlie Kaufman


De "Sinédoque" não será justo dizer que soa falso o tempo todo.

A falsidade, ou seu duplo, a teatralidade é seu princípio.

Estamos na história de um diretor de teatro sempre à beira da morte, de quem a mulher se separa levando a filha. Eu queria compreender a mulher, mas ela me parece insuportável. O dramaturgo não pensa assim, no entanto.

Pouco depois ele ganha um prêmio importante e decide montar uma peça em que condense a verdade da vida, nem que seja da sua.

Este será o "plot", à parte suas contínuas doenças, de natureza psíquica ou não.

A peça que monta é um duplo perfeito da vida. Nunca estréia. Porque a arte consiste em organizar, mesmo que precariamente, o caos que é a vida. O dramaturgo só faz duplicar o caos.

Quanto mais a vida duplica, mais caótica se torna. Em busca do realismo absoluto, o diretor-autor perde-se em sua Babel, levando junto Charlie Kaufman.

A respeito desse filme ouvi falar de influências várias, como Fellini e Bergman. Me pareceu ver fragmentos de coisas que vi muitas vezes, inclusive uma psicanalista que parecia saída de filme de Woody Allen.

À medida que o filme se desenvolvia e multiplicavam-se os duplos, e depois os duplos dos duplos, como uma babushcka, eu imaginava que aquilo ia se tornar uma comédia, mas era um drama cada vez mais soturno, ou mais adolescente, na verdade, sobre nossa finitude.

Charlie Kaufman estréia com ares de quem inventou a inteligência. Nesse ramo, Peter Greenaway já trilhou um longo e estéril caminho.

P.S - Para saber o que é sinédoque, uma consulta ao dicionário é o mais indicado."

O Inácio é bem chato pra muitas coisas, mas acho que o caminho é meio que por aí. O filme não é toda a maravilha do mundo, mas, pessoalmente, nutro um gosto cada vez maior que ele. Acho que minha maior dificuldade com o filme foi com a mulher e com a filha do dramaturgo. Elas me desestabilizaram muito.

Enfim, isso já tá muito grande.

Depois te mando um email, ainda quero falar sobre o Onde Vivem os Monstros, esse sim uma maravilha.

Segue outro texto:
http://multiplot.wordpress.com/2010/02/21/onde-vivem-os-monstros-where-the-wild-things-are-spike-jonze-2009/

Beijos Lou.
E desculpa pela resposta gigante.

Mazu disse...

Oi, Lou!
Eu li seu posto e me lembrei porque eu gosto tanto do filme. Eu gosto muito de filmes, no geral, mas os incômodos são mais legais pq, isso é obviamente pessoal, pq eles são mais fáceis de se identificar, saca. Bem que eu gostaria de identificar com a Jennifer Lopez que é bonita e casa com os caras bonitões na vida real e nos filmes e muito facilmente. Na verdade eu nem sei se eu gostaria pq no fundo a gente gosta de ser meio esquisito. E eu estou perdendo o fio da meada, e a falta de fio na meada é justamente meu ponto com o Sinédoque. A vida atropela a gente, sabe. O tempo passa e se vc não tem muito foco, qdo vc levanta a cabeça de novo, as pessoas não são mais as mesmas, embora sejam parecidas e, às vezes, quase cópias umas das outras. O tempo passou, seu projeto já nem é mais tão revolucionário assim, e a gente cansa. A gente acha q cabe umas cinco vidas dentro da nossa né e de repente tudo fica muito grande e complicado. E é esse negócio de perder a hora e o foco e também a relação com os outros sabe, essa validação de alguém ter sempre que aprovar te dizer o que fazer. E as vezes essas pessoas nem cabem no próprio sapato tipo a terapeuta. Eu me acho demais ali, por mais malucas q sejam as empreitadas do Jonze, eu sempre me acho. Embora ele seja bem crítico dessa coisa de "vamos relatar o real no cinema e no teatro" blé, o que dá pra ver no Sinedoque e no Adaptação, ele sempre me faz ver e de forma bem poética - eu acho - como é foda (e aí cabe um complexo) essa pegada de existir.

Beijoca