sábado, 5 de dezembro de 2009

Saquinho de vírgula

No filme Meu nome não é Johnny, o personagem principal expressa seu descontentamento com a verborragia de um interlocutor quando lhe promete dar de presente um saquinho de vírgula. Talvez assim, usando as vírgulas, a pessoa faça "pausas para respirar".

O saquinho de vírgulas das pessoas que escrevem os textos que eu leio na/ pra Unir é superlotado de vírgulas.

Sabe como eu sei que os meus alunos estão plagiando alguém? Quando não há erros de ortografia ou vírgula no texto que eles me entregam. Acho que começo a entender por que vírgula é um problema tão cabeludo. Os meus alunos ainda não se deram conta de que a escrita não representa a fala. Não se ligaram ainda que existe um abismo entre a fala e a escrita. O que prova que eles acham que podem escrever como falam são as legiões de frases feitas, as expressões idiomáticas e sabedorias populares funcionando como argumentos. Ou seja, usam as ferramentas que têm à disposição para escreverem suas dissertações: o que os outros disseram e dizem por aí. Outra prova que escrevem como falam é a própria estrutura da frase. Raramente usam a ordem direta de sujeito> verbo> objeto(s)> adjuntos (S V O + adjuntos). Para satisfazer questões de relevância, puxam pro início da frase ou as informações circunstanciais de espaço, tempo ou modo (os adjuntos), ou o tópico. Além disso, enfiam o máximo possível de informações entre o sujeito e o verbo. O resultado final são frases com milhares de vírgulas (muitas vezes mal colocadas), que ocupam um parágrafo.

Você quer exemplos? Pra preservar a anonimidade dos autores dos textos que leio (tô me sentindo super padre lidando com confissões, ou enfermeira limpando a bunda dos pacientes), vou inventar alguns exemplos análogos ao que ando corrigindo:

O João, para ele ser alguém na vida, ele precisa, assim como todos nós, saber que a vida é injusta, cruel e madrasta, portanto, para ser feliz, o João, que é um sujeito batalhador, honesto e boa gente, tem que estudar, porque, atualmente, só quem tem instrução nessa sociedade de informação, hoje, terá sucesso, e para ter sucesso é preciso estudar.

João, conhecia muitas pessoas, em universidades, grandes e pequenas, que gostariam de fazer um melhor uso do material didático, que, devido à sua rigidez, era muito pouco maleável, por isso, João desenvolveu, junto com sua secretária, um novo método, capaz de integrar várias competências e habilidades, para ser disponibilizado aos professores, e por conseqüência, aos alunos.

Rapadura é doce, mas não é mole, não.

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