sábado, 19 de dezembro de 2009

Estupidificação do consumidor

Ontem eu vi um filme chamado Zeitgeist. É do mesmo naipe que The Corporation (sobre como as corporações exploram recursos até o osso e depois cospem no prato dos outros), Além do Cidadão Kane (sobre a política e lavagem cerebral da Rede Globo) e talvez An inconvenient truth (sobre o aquecimento global). Eu os colocaria na mesma categoria, porque são filmes feitos por ativistas preocupados em denunciar abusos. Alguns foram proibidos, claro, justamente porque criticam as corporações que manipulam os consumidores (então, já não somos mais cidadãos, somos consumidores de informação, entretenimento, violência, mantimentos, supérfluos, poluição etc).

Esse filme, Zeitgeist, é dividido em três partes, em que são mostradas diferentes maneiras de manipulação. A religião é o foco da primeira parte, a mídia de massa é o enfoque da segunda parte e o banco central é o tema da terceira parte. A tese central é que somos manipulados pelo discurso religioso, pelo discurso da mídia e por quem retém riquezas.

A manipulação da mídia de massa me interessa, porque as pessoas assumem que o que passa na TV é verdade. A televisão tem esse poder e essa autoridade. Não me refiro às novelas que são confundidas com a realidade por muitas pessoas que agridem atores que interpretam vilões na novela. Mas veja: encomendei 3 pesquisas pros meus alunos de 1° ano de Letras. Uma das pesquisas era sobre estrangeirismos em dicionários. Tive que explicar o que são estrangeirismos, porque isso não era óbvio. Uma aluna, que achou que não precisava de dicionário para fazer a pesquisa, fez uma lista de palavras de outras línguas que não são necessariamente estrangeirismos, porque não foram incorporados à língua portuguesa com grafia da língua original, como é o caso de delivery, blitz, rush, status, point, pen drive, yin & yang etc. Os exemplos dela incluíam duas palavras (hare baba, ou coisa parecida, e mais uma) que ela coletou da novela das 8 que não passa às 8 e provavelmente já acabou. Aquela novela dos indianos de meia tigela.

A minha aluna, influenciada pelo poder da novela, achou que duas palavras usadas por personagens de um programa que dura menos que um ano entraram pra língua portuguesa. A novela dita moda, mas a moda é passageira. Quem usa sutiã pra fora do decote da blusa hoje chama atenção, porque não está mais na moda lançada pela Glória Pires (ou foi a Suzana Vieira?) numa novela de tempos idos. Tenho a impressão que as pessoas que assistem novela mergulham naquele mundo da ficção e perdem a sensibilidade para o mundo real.

Outra coisa: para acessar o meu e-mail do Uol, preciso passar pelo site do Uol, que se pretende um site de notícias. Quase toda a parte direita, que ocupa um terço da página, é reservada para propagandas. Na abertura, uma seção é 'animada': as imagens e manchetes se sucedem. Uma das imagens que aparece é propaganda, não é notícia. Em outras palavras: essas notícias que o Uol pretende passar estão poluídas de propaganda. Voltemo-nos para as notícias, que estão organizadas em diferentes seções: Vídeos, Entretenimento, Esporte, Notícias, Beleza, Bichos, Receitas de Natal, Crianças, Horóscopo, Jornais e Revistas, Fotos, Blogs e Humor. Cadê jornalismo aqui? Já que a perfumaria é tão importante neste site, recorto uma manchete dentro da seção Beleza: Seu cabelo pode parecer mais saudável do que ele é; saiba como. Não interessa ser saudável, importa parecer saudável. Essas coisas me dão azia.

Ok, pode dizer que Uol não é jornal. Vamos então à Folha, que tem tantos leitores. A Folha tem duas seções que me intrigam: Trânsito e Terror. Lembro de uma notícia que eu li na Folha sobre uma manifestação de estudantes na Av. Paulista. Quis saber quem eram esses estudantes e por que protestavam, mas só consegui descobrir quais avenidas devo evitar por causa do congestionamento causado pelos estudantes. Focar a atenção na fluidez do trânsito motorizado em detrimento das causas sociais é grave. Ainda mais agora, em tempos de dicussão sobre formas sustentáveis de mobilidade. E promover o Terror a seção de jornal também é grave. Tenho a impressão que se perdeu a noção do todo, e que só importam os detalhes debaixo da lupa.

Nesse sentido, pense no grau de detalhes que são fornecidos ao telespectador que acompanha jornais, quando relatam crimes. O telespectador é promovido a testemunha, ao ser informado sobre os requintes de crueldade, o tempo da vítima em cativeiro, o número de agulhas na barriga do menino. O telespectador não é detetive, não tem voz nenhuma, mas vivencia as atrocidades. Entendo que pessoas sofram de depressão, ansiedade e frustração só por assistirem TV. Lhes é apresentado um mundo ao qual não têm acesso. Assim, são desestimuladas a agir.

6 comentários:

Anônimo disse...

Olá Lou,
Gostei do seu blog, vc passa o seu cotidiano de uma forma bem interessante, sempre leio.
Então, uso um complemento chamado "AdBlock", ele bloqueia as propagandas dos sites, diminuindo a poluição visual das páginas e ainda economiza banda da internet.
t+
Cláudio.

iglou disse...

Obrigada, Cláudio!

Mônica disse...

Lou, adorei suas impressões sobre a influência da mídia. O problema é que, como seu texto acabou revelando, essa influência (e domínio da vontade coletiva) é percebida por poucas pessoas (geralmente pessoas que cursaram o ensino superior e que têm uma formação crítica), e a educação, em nosso país, infelizmente não dá muita atenção a esse lado crítico (creio que apenas algumas faculdades ainda deem atenção a esse carater da educação).

Enfim... Mudando de assunto:

Para não ver as propagandas, vc pode, tb usar um programa de e-mails (outlook express, mail, thunderbird etc.).

Se vc preferir, pode redirecionar seus e-mails para uma conta do gmail, por exemplo, e não precisará abri-lo pelo UOL nunca mais.

Atualmente eu faço as duas coisas: redireciono o e-mail para uma conta do g-mail e tenho, em meu desktop, um programa que recebe e envia todos os meus e-mails. Assim, não preciso aguentar as propagandas, a interface é amigável e fácil de usar, mantenho um arquivo das respostas etc. E, no gmail, mantenho uma cópia de todas as mensagens para o caso de ter de acessar alguma coisa de outro computador.

Espero ter ajudado.

iglou disse...

Obrigada por ter lembrado dessa ferramenta de redirecionar e-mails!

Sim, percebo que a educação faz a diferença e que o curso de Produção Textual que eu vou dar ano que vem vai abordar a manipulação da mídia de massas.

Carlos Teixeira disse...

Lou, também gostei das suas observações. Ainda não assisti a Zeitgeist, mas já tinha ouvido falar e vou tentar conseguir para assistir também. Deixo aqui um link de um artigo que acabei de ler e que tem um pouco a ver com o que você comentou: http://www.cartamaior.com.br/templates/colunaMostrar.cfm?coluna_id=4492&boletim_id=627&componente_id=10466
Abraço,
Carlos

iglou disse...

Salve, Salve, Carlos!
Obrigada pela indicação do texto. Não tava sabendo dessa tapetada, e acho altamente preocupante.
Abraço!