terça-feira, 10 de novembro de 2009

Katastrophenfest

Tudo o que segue foi escrito em casa, logo depois da desgraça; e postado na lan house no dia seguinte, porque fiquei sem internet.


Agora eu sei o que é ter a casa alagada. Agora eu conheço o gosto do desespero e a sensação de impotência diante da água que não pára de entrar. Agora eu sei que a água que entra traz lama, papel de bala, embalagens de catchup do Mc Donalds, muitas folhas, galhos, bitucas de cigarro e mais lama. Agora eu sei por onde a água entra na minha casa e por que ela não sai. Agora tenho noção do quanto ela sobe e o que ela arrasta. 
Meu butijão de gás foi tombado; a caixa d’água nova que estava fora, esperando ser instalada pelo Berg, foi parar no meio do jardim; uma lata de tinta que me servia de composteira foi parar no portão.
Não sei se a geladeira vai voltar a funcionar, se a furadeira - que tava no chão - vai ligar de novo. Não sei quando o sofá vai secar. Não sei quanto de água ainda tem dentro da caixa d’água (já lavei o chão da casa e a minha pessoa), e ainda preciso lavar toda a minha roupa suja que tava no chão e ficou enlameada. Não sei quando os meus braços vão parar de doer. Não sei quando vou limpar embaixo e dentro dos móveis. Não sei que coisas vou achar quando terminar de limpar a casa: o shampoo apareceu atrás do sofá, a tigela de comida da Akari passou por ela enquanto ela dormia na minha cama. Não sei quando o cheiro de lama vai se despregar da casa.
Vamos à estória. Eu tava ouvindo a chuva lá fora, a goteira no balde aqui dentro e corrigindo redações horríveis dos meus alunos - impressionada como cada um tem a sua ortografia pessoal e nenhum deles tem uma opinião própria- quando ouvi os gritos da minha vizinha me chamando. Havia muita urgência na voz dela, quase uma ponta de descontrole do timbre. Não cheguei até porta. Vi a água invadindo a casa. Desliguei o computador, tirei os panos que estavam ao redor da pocinha gerada pela goteira e comecei a absorver água com um pano. Daqui a pouco eu estava enchendo o balde e jogando a água na pia. A água não descia. Olhei pela janela e vi o Rio Madeira dentro e fora da minha casa. A água lá fora estava mais alta que aqui dentro. Salvei as fotos da estante, coisas da escrivaninha, o pacote de arroz, desliguei a geladeira e vi que a Akari tava segura.
Entre 10:30 e 15:00 eu joguei baldes de água pela janela. As folhas, galhos e centopéias ficavam na tela. Eu ouvia crianças gritando de alegria, adultos brigando, gente gritando. Reparei que o nível da água estava baixando devido à minha atividade incessante. Pra ajudar, a água não entrava mais pela porta da cozinha. Abri a porta e vi que a água fora estava mais baixa que a mureta da soleira da porta. Sentei numa cadeira, para descansar as pernas e a coluna, e continuei jogando baldes de água pra fora. Notei que a água agora fluía pra rua. O esgoto deve ter desentupido com a pressão. O nível da água baixava fora de casa, mas dentro, a piscina continuava na mesma. De fato, a minha casa é uma piscina. Há uma mureta na porta da cozinha e fizeram uma lombada na frente da casa, no quintal. A água que tinha entrado pra depois da lombada ficava ali, represada. Achei a vassoura na grade do portão e me pus a varrer a água pra cima da lombada. O chão da minha casa é bem irregular, então cada cômodo manteve a sua poça particular (de até dois dedos de profundidade) mesmo depois de toda a água ter saído pela porta. Demorei mais duas horas para limpar o chão da casa. Haja lama! Akari decorava o chão de patinhas marrons, miava de fome e sede e não entendeu quando virei o sofá de ponta-cabeça. Fiquei sem almoço e agora tenho medo do som da chuva.
liguei pro Berg. Espero que venha amanhã, me ajudar a pensar numa solução pra futuros alagamentos.

5 comentários:

Mônica disse...

Lou, que pesadelo! Já vivi algo parecido aqui em casa, mas como a água entrou lá na lavanderia, não perdi nada. Imagino seu desespero para salvar as suas coisas!

Dos males o menor, não é? Pelo menos vc e Akari estão salvas!

A água entra pela rua? Acho que o jeito é pedir a um serralheiro que faça uma comporta.

Boa sorte, amiga!

Jonas disse...

Oh no!

Where did all the water come from? Did the rains make the river level rise?

In any case, I hope things will get better now!

iglou disse...

Obrigada pela preocupação e pelas dicas.
Jonas, it is not exactly the river, because the river is some 3 km away from me. It probabbly is that I am lower than the other neighbourhoods around me. Certainly, it has to do with the fact that the gutter is filled with plastic bags, bottles and so on, in a way that the water cannot flow. Moreover, the asphalt prevents the water from getting absorbed.

Estou bem, só preciso me preparar pra próxima chuva.

Juliana disse...

Lou
Imagino que situação triste.
Força e coragem para vc!

bill disse...

Que tenso!