quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Expulsos no grito

Me sinto parte do cineclube que acontece na Unir todas as quartas-feiras, das 17:30 em diante. Dois alunos, Paulo e Guilherme, tomaram a iniciativa de organizar os encontros semanais em que um filme é exibido e depois discutido. Já usei o espaço do cineclube para mostrar aos meus alunos de Produção de Textos como o paralelismo é um elemento de coesão interessante para um texto, quando pedi que o cineclube passasse o filme 'Estômago'. Semana passada, conduzi a discussão sobre o filme 'A Onda'.

Fico feliz ao notar que cada vez mais alunos participam do cineclube e ficam para a discussão que acontece após a exibição. O cineclube está se transformando num espaço de trocas culturais. Aprendemos uns com os outros, nos diálogos que acontecem depois dos filmes. Fico contente de ver que Paulo e Guilherme estão envolvendo também professores para conduzirem as discussões. Hoje, o filme exibido foi 'Onde sonham as formigas verdes' (1984), do Werner Herzog. Um professor de antropologia tinha sido convidado para encaminhar a discussão no cineclube, mas não pode vir.

O filme se passa na Austrália árida e trata de uma tribo aborígene que resiste a uma compania mineradora inglesa que procura urânio. Os aborígenes compreendem a terra, cultuam o solo que lhes é sagrado. O homem branco explode a terra à procura de riquezas em que vê a promessa do progresso. Os nativos sentam-se no chão para impedir que os brancos acordem as formigas verdes com os seus tratores e dinamites. Um homem branco quer passar com o trator em cima dos pretos, outro encaminha a disputa pela terra por vias burocráticas e conduz a discussão à Corte Suprema.

Aí então a coisa desandou. Uma gorda histérica apareceu na porta da sala dizendo que ia dar aula e que era pra gente sair. A aula dela começava às 19:00 e já eram 19:10 e tinha tanta sala vazia, que a gente fosse pruma outra sala, porque a gente tava na sala dela. A histeria dela era contagiante. Meu corpo todo tremia. Todos gritavam. Ela chamava todos de 'meu anjo' e 'bem', o que piorava ainda mais a nossa revolta. Ela acendeu as luzes, fez seus alunos entrarem na sala, afirmando que os alunos dela queriam ter aula, que aquela era a sala do 4. período de Administração, tava escrito na porta. Foi até a frente da sala e arrancou todos os equipamentos das tomadas: computador, datashow e caixas de som. Assim: arrancou da tomada. E continuava gritando que não era pra gritarem com ela, que ela estava sendo desrespeitada, que ela já era professora há 17 anos e que o que ela fazia era coisa séria. Ela era professora. M., da Administração. Paulo apontou pra mim, dizendo que ser professora não lhe dava nenhum status, afinal ele também tinha uma professora do lado dele. M. olhou pra mim e eu tremia, de olhos esbugalhados, tendo dificuldades para coordenar a respiração. Perguntamos por que só queria usar a sala agora, no fim do semestre e onde estava tendo aula todas as outras quartas-feiras em que nós estávamos assistindo filme naquela mesma sala. Ela repetiu que aquela era a sala dela. Uma aluna disse que a sala em que eles estavam tendo aula até então estava com o ar-condicionado quebrado.

Paulo, enganchado no filme que foi interrompido à força, queria protestar como aqueles que tinham chegado antes: ficando. Guilherme já estava desmontando as coisas, vendo que o público já tinha ido embora e que só tinham ficado as figuras marcadas do DCE e a professora com cara de adolescente altamente estupefata. A gorda histérica levantou o braço com o indicador esticado e nos jogou pra fora. Saia da minha sala! ela gritou.

Ficamos encostados na parede da sala dela, nos espantando com a surrealidade dessa tomada de posse. Conversamos com a aluna que afirmava ter avisado o Paulo que usariam aquela sala. Ela não entendia por que não passamos o filme mais cedo, por que não fomos pra outra sala. A gorda histérica apareceu na porta da sala e chamou essa aluna pra dentro. A moça foi.

Paulo, Guilherme, Ricardo e Daniel do DCE e eu decidimos averiguar se aquela sala tem dono. A sala está no bloco de Letras, Paulo e Guilherme são das Ciências Sociais/ História e a M. é da Administração. Procuraremos garantir uma sala por meios burocráticos e manifestar nossa revolta com essa professora descompensada.

4 comentários:

Mônica disse...

Ah, Lou. A gorda estava com calor! Como é que vc quer que ela dê aula em uma sala sem ar-condicionado? [hehehe]

brincadeirinha... liga no modo ironia.

bjs

faça que desfaça o fato disse...

Paulo..



Nossa, acho que expressão para definir aquilo é SURREALISMO QUASE BIZARRO, estilo David Lynch. hehehe

Nota de roda pé:
Bizarro:A gorda histérica.
Surreal:A cena toda.

Ainda bem que não tive aula depois. pq acho que não iria me concentrar nem um pouco.

bill disse...

Puta merda,
me deu raiva só de ler!

Denise Quitzau Kleine disse...

Hmmm... Sensação de deja vu... Ano de 1993, sala do prédio da pós no IFCH, cinema russo... Só lamento que bizarrices como estas se repitam por aí - e que frente a isso tudo a gente fique praticamente sem ação. Credo!
Cê pode me dar teu email? Helena nasceu e queria te mandar umas fotos pra você conhecê-la, mesmo que virtualmente.

Abração e não aborte a missão: as sessões de cinema são indispensáveis, já a gorda histérica pode passear...