domingo, 15 de junho de 2008

World Naked Bike Ride

São Paulo, 14 de junho de 2008, 14:00.

Vamo pedalá pelado!
Como assim?
Assim, tirando a roupa.
Mas por que?
Pra demonstrar como ciclista se sente no trânsito. A gente não tem a lataria do carro, não tem vidro blindado, não tem air bag, cinto de segurança, ou qualquer outra proteção a não ser o capacete e roupas coloridas e luzinhas de noite pra se proteger. E isso parece não ser o suficiente, porque ciclista não é respeitado no trânsito. Então a gente está tirando a roupa pra chamar atenção pra nossa fragilidade.
Renata Falzoni estava lá, concentrando atenções no seu corpinho de 54 anos, como gostava de enfatizar. Arturo Alcorta também estava lá, me reconheceu de cara, mas não sabia de onde. Achei que essa velha guarda cicloativista seriam as únicas caras conhecidas, mas me enganei. Mais disso depois.
A imprensa estava em peso na Praça do Ciclista. Havia vários carros estacionados embaixo da placa de proibido estacionar. Um cicloativista perguntou pros policiais: não vai multar? Não, eles são imprensa.
Esses dois, entrevisando o André, que é o cara que foi preso, são de um programa de humor histérico. André tava sem cueca, com uma tanga feita de capas da Playboy. Indecência não é eu aqui pelado, é motorista tirando fina da gente. A lei exige que a ultrapassagem seja feita com um metro e meio de distância do ciclista.Do meio dia às duas da tarde de sábado, ficamos na Praça do Ciclista dando entrevista, servindo de alvo pras lentes dos fotógrafos, pintando os corpos dos ciclistas. Além de florzinhas, copos quebrados (frágil) e bicicletas, as pessoas escreveram mensagens umas nas outras: vá de bike, sou trânsito, pedale, não buzine.
Eu tinha duas preocupações: arranjar uma bicicleta e arranjar uma forma de passar o tempo até às 14:00. Parei do lado de um cara que eu não conhecia, dando entrevista e falando sobre o excesso de carros na cidade de São Paulo e como essa situação de trânsito trancado está ficando insustentável. Acabou a entrevista, e eu continuava lá, só olhando. Você é de onde? Campinas, e vim sem bike. Tem idéia de como posso arranjar uma? Opa, peraí. Foi atrás de bicicletas de aluguel da Porto Seguro, e voltou dizendo que só assegurados podiam emprestar bicicletas. Puxa.
Reparei num moço de rosto conhecido. Sentei do lado e fiz o que ele tava fazendo: dobrando panfletos. Cê fez Porto? Fiz, cê também? Não, fiz Humboldt. Cê fez USP? Fiz. Você já me deu carona na USP. Sério? É, tinha um monte de bambu ou palmito no carro, até foi difícil de entrar no carro. Pode crê! Isso é da época que eu era escoteiro, junto com os alemão batata da Igreja da Paz. É, Mathias, nossos caminhos se cruzam mais uma vez.
Perto das 14:00 passei por mais um rosto conhecido. Passei de novo e a ficha caiu: Ariel! Cê mora em São Paulo? Não, vim de Campinas e tô sem bicicleta. Vem comigo. Fomos até a casa do Ariel e buscamos mais uma bicicleta. Ariel caiu do céu! Sem bicicleta eu provavelmente não teria acompanhado a galera, porque eles seguiram rápido pela Av. Paulista.
Aí o André foi preso por atentado ao pudor. A Renata Falzoni tava do lado dele, dizendo então me leva junto. Você não! Claro que não. Renata Falzoni é quase celebridade, sendo apresentadora de um programa esportivo, não pode ser presa. Os ciclistas que estavam na frente do grupo decidiram: Vamo pra delegacia! Todo mundo pra delegacia! Eu aproveitei o momento de desorientação pra distribuir os panfletos que eu tinha dobrado com o Mathias. As pessoas recebiam os papéis com gratidão, acreditando que aquele papel lhes revelasse por que um bando de ciclistas resolveu tirar a roupa numa tarde de sábado. Foram decepcionados porque o panfleto era referente ao movimento da bicicletada em geral e em específico à inauguração dia 10 de maio de uma ponte. Nada que explicasse nossa falta de roupa.

Fomos até a delegacia. Paramos o trânsito, provocamos buzinadas, sirenes, admiração. Ôh, seu delegado, solta o pelado! Ficamos um tempão na frente da delegacia, atentos pra deixar que os carros passassem por nós na Av. Estados Unidos, mas não recuperamos o André.
Voltamos pra Praça do Ciclista subindo morro, sendo a subida da Augusta a mais cruel. Ah, Mathias tá à esquerda na foto aí em cima. Na foto de baixo está o Ariel.
O evento foi noticiado no Jornal Nacional: 100 ciclistas pedalaram nus pela Av. Paulista, um foi preso e liberado em seguida. O Estadão publicou que 200 ciclistas complicaram o trânsito e que um foi preso porque estava nu. Pelo visto, só nós sabemos por que quisemos pedalar pelados.



2 comentários:

Natalie Rios disse...

Querida Lou!

Maneiríssimo que você foi, tirou fotos, e pode nosocntar o que aconteceu.
Estava procurando notícia na mídia e só havia porcaria e sensacionalismo pela nudez!
MAs eu ia propor um calendário diferente sul-equatorial! Está começando nosso inverno, e pro amigos do norte é o verão! Tem que respeitar as estações!
Depués nos hablamos si podés.

GB disse...

O mundo só tem jeito quando vampiro doar sangue e sací crusar as pérnas.

(frase modificada, autor desconhecido)