sexta-feira, 6 de junho de 2008

Você é rapaz?


Eu estava sentada num dos bancos do vestiário da academia de natação, enxugando o pé. Entra uma senhorinha. Aquela que eu vejo todo dia sentada no banco do jardinzinho da academia, conversando com outras velhinhas. Imagino que ela faça hidroginástica e seja daquelas que chega uma hora antes de começar a aula.
A senhorinha passa por mim, a caminho do banheiro, me olha e pára. Fica visivelmente desconcertada e me olha nos olhos por um período de tempo longo, que chega a me causar desconforto.

Você é rapaz?

Alongo o 'n' de não e termino numa curva entonacional ascendente. A outra guria sai da ducha neste instante e dá risada. A senhorinha, no entanto, fica completamente sem-graça. É que você tá me lembrando alguém que eu conheço.
Vai para o banheiro, dizendo que uma grande amiga dela morreu.

Será que dá pra analisar esta cena bizarra?

Imagino que, quando a senhorinha me viu, várias dúvidas passaram por sua cabeça: esta pessoa é homem ou mulher? Devo checar? Será que eu entrei no vestiário certo? Devo ir até a porta e checar? Até ela tomar uma decisão, ficou me olhando fixamente. A decisão tomada foi checar se eu sou uma mocinha ou um rapaz, ao invés de duvidar de sua escolha de porta de vestiário. Ela fixou o meu rosto, e não procurou por sinais no meu corpo que lhe indicassem que não sou um rapaz. Em seu campo visual periférico não entraram informações sobre o meu vestuário que pudessem ajudar a decidir o meu sexo (roupa cor de rosa, elementos cintilantes, desenhos de bichinhos ou formas arredondadas, tipo coraçõezinhos).

Quando eu respondi sua pergunta, ela justificou a sua dúvida: você me lembra alguém que eu conheço. Provavelmente a memória dela evocou todas as vezes que eu passei por ela, ao sair da academia. É possível que ela sempre tenha assumido que aquela pessoa mexendo naquela bicicleta diferente seja um rapaz, porque rapazes andam em bicicletas deste tipo.

Depois que eu respondi e a outra mocinha riu da pergunta da senhorinha, surgiu um mal-estar. A senhorinha ficou sem-graça por ter me classificado erroneamente, eu fiquei sem-graça por ter evocado tal situação. Ela não pediu desculpas, mas desconversou, comentando a morte da amiga.

Em outras situações parecidas (entro no banheiro do IEL e uma menina se sobressalta, ai meu Deus! aqui é banheiro de homem?!; o policial rodoviário me vê pedalando em cima da faixa que separa o acostamento da pista e grita, de peito estufado: ôh, meu irmão!) o mal-estar foi tão grande, que os pedidos de desculpa foram constrangedores.

Nossa herança genética traz capacidades que não precisamos aprender do zero: achar comida (food), decidir se lutamos ou fugimos quando confrontados com situações novas (fight or flee), decidir quem é amigo e quem é inimigo (friend or foe) e escolher um parceiro para reprodução (finding a mate, ou simplesmente fucking). Nos três casos relatados acima, as pessoas não foram capazes de usar os mecanismos básicos para realizar a quarta capacidade com competência, ou seja, identificar o sexo do outro; e isso lhes causa desconforto.

Admito que não tenho a estatura típica de uma mulher brasileira. Admito que não me visto como a maioria das mulheres brasileiras (roupa apertada, cor de rosa, estampas de bichinhos ou outras coisinhas fofinhas, roupas com fitas, brilhantes ou palavras tipo 'girl' ou 'sexy', saia, vestido, sandálias ou sapatos de salto alto) e que não me pinto como a maioria das mulheres brasileiras (não uso maquiagem nem pinto as unhas. Quando pintei as unhas de vermelho, me supreendia toda vez que as minhas mãos entravam no meu campo visual: isso é sangue? Essa mão é minha?). Imagino que os brasileiros (ao menos os campineiros) se orientem por estes sinais que eu não dou, porque fora do Brasil nunca fui confundida com um homem. Ou pelo menos nunca assumiram verbalmente que eu fosse um.

2 comentários:

Jonas disse...

Great story! Don't worry, I don't think anyone in their right mind could make that mistake. Never mind the high-heeled shoes by the way, the real Brazilian girl is wearing platform shoes! *clunk* *clunk* as if it's 1996 all over again...

iglou disse...

Thanks for that comfort!