quinta-feira, 12 de junho de 2008

Sweet Dreams & Das Kapital

Li este livro do Dennett com o dicionário. Se eu lia na rede, os dois livros vinham junto, se eu lia na cama, o dicionário vinha atrás do Dennett. Não tive sweet dreams, como promete o título, porque a leitura é densa.

Quando Julio, mecânico de avião, leu O Capital (em português, claro, porque nem todo mecânico de avião brasileiro sabe o suficiente de alemão pra acompanhar a discussão de Marx), tudo fez sentido. Julio é o cara que voltava pra casa com as mãos tão sujas de graxa, que não adiantava esfregar com sabão em pó pra limpá-las. Julio é o caçula que sustentava os pais com o seu trabalho sem reclamar. Julio é o cara que gostava do trabalho braçal, mas queria a oportunidade de refletir sobre as coisas antes de meter a mão na graxa. A leitura foi penosa. Não só pelos termos técnicos, que o levavam constantemente ao dicionário, mas pelo tempo de digerir as informações contidas no texto.

Li Sweet Dreams com ajuda não só do dicionário, pra entender as palavras que não fazem parte do meu vocabulário ativo nem passivo ou virtual; mas também com ajuda do Philosophy Talk. Foi através de alguns episódios deste programa de rádio que pude perceber como o debate acerca da consciência é visceral, e por que o Dennett soa tão arrogante e certo da 'verdade', e como esses caras tipo Chalmers e Dennett são inimigos mortais, academicamente falando.

Não se sabe como O Capital caiu nas mãos do Julio, mas a leitura mudou sua vida. Entendeu como a maquinaria do capitalismo funciona e decidiu estudar pro vestibular.

Sweet Dreams é mais um livro da estante do Renato. Assim como pro Julio, no fim, as coisas fazem sentido. Não há nada para além da matéria, e uma filosofia da consciência é impossível, porque o que há são sinapses, neurônios e essas coisas que são analisáveis através das neurociências, não da filosofia. A filosofia pode considerar os avanços no campo das neurociências e tecer discussões a partir destes resultados, mas não pode, por si, avançar nos estudos da consciência, porque toma a consciência como um primitivo irredutível (assim como matéria ou tempo) e porque usa conceitos intuitivos e mal definidos como qualia e zombies.

O contato com a filosofia muda a minha vida acadêmica, no sentido de me dar mais instrumentos para argumentar, analisar e interpretar textos, sejam eles meus ou de outros. A correção dos trabalhos dos alunos do curso de que sou PED, por exemplo, foi uma bela demonstração das minhas capacidades críticas.

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