sábado, 10 de maio de 2008

Meu Sandwalk

Submeti aquele artigo - modificado - a outra revista, depois de detalhadamente estudar as condições deles. No mesmo dia, o editor me escreveu, dizendo que o texto estava muito interessante, que certamente havia muito esforço ali, mas que não havia nada sobre o cérebro dos sujeitos cuja fala é examinada. O que interessa para aquela revista são as relações entre linguagem e cérebro, e eu não tinha nem cérebro pra acompanhar a discussão. O meu Sandwalk me levou até a lagoa atrás da Unicamp.

Dia seguinte, orientação. Passei o dia todo com a minha orientadora, discutindo a minha tese. Tenho nela uma boa leitora, e as sugestões e cobranças dela realmente ajudam a melhorar a qualidade da tese. Caminhando com ela pelos corredores do IEL, topamos com a organizadora do SePeG (seminário de pesquisas da graduação), que precisava de debatedor pra terça de tarde. Minha orientadora não podia nesse horário. Olharam pra mim, sorrindo. Me asseguraram que eu posso (legalmente) ser debatedora num seminário de graduandos. Os quatro textos estariam à disposição no dia seguinte. O meu Sandwalk foi o percurso de ida e volta à Unicamp.

De noite liguei pro MS (depois de dois anos sem ver a pessoa) e pedi que me trouxesse alguma coisa sobre a sua lesão. Concordou. Maravilha! No dia seguinte, ele veio pras atividades do grupo dele de manhã, me entregou as tomografias e mostrou na agenda dele todos os filmes que tinha visto neste ano. Ele vê 4 filmes por semana - em média. De graça, porque já é amigo do gerente do Kinoplex. Feliz da vida por ter conversado com o MS e por ter agora informações sobre o cérebro dele, abri o envelope. Me dei conta de que não sei ler tomografias de cérebros. Sei ler a tomografia do meu pé, porque os 7 parafusos dão uma orientação básica. Nem olhei pros textos que terei que debater, nem fui na natação, nem caminhei.

Na mesma tarde, fui ao hospital da Unicamp, pra acompanhar o OJ. Este é o meu outro sujeito com agramatismo. OJ passaria por uma avaliação com o neurologista. Mas antes um outro afásico, que tem a área de Broca lesionada mas faz circunlóquios (o caso é doido: por via de regra, quem tem lesão na área de Broca tem afasia de Broca, o que significa que apresenta uma fala 'telegráfica'. Mas tem gente que tem afasia de Broca e não tem a lesão na área de Broca. Agora esse senhor tem uma lesão na área de Broca e fala pra caramba sem sair do lugar). OJ e eu ficamos mais de uma hora sentados no saguão do hospital. Eu queria ter gravado a nossa conversa!!!!

Entramos na sala do neurologista e OJ fez os testes de memória, atenção, planejamento, orientação espacial, visual e repetição de palavras. Impressionante, ver um neurologista em ação. Impressionante, ver o desempenho de OJ nos testes que envolviam palavras ou números. Depois da entrevista combinamos um monte de coisas, olhamos pras tomografias, e quando cheguei em casa, me dei conta de que no meu envelope estavam as tomografias do afásico de Broca que faz circunlóquios, que deviam estar a caminho de São Sebastião do Paraíso. Em troca, uma das tomografias do MS estava a caminho de Minas Gerais.

Dia seguinte, acordo depois de uma noite cheia de sonhos tensos, repletos de imagens de cérebros, corredores vazios do HC que sempre parece sujo e velho. De pé, ligo pro laboratório que fez a tomografia e o diagnóstico de MS. Peço uma segunda via do laudo. A tomografia é de 2005. Ah, vocês não têm segunda via dos laudos de 2005. Maravilha. Posso ir aí e pedir pra algum médico ou neurologista interpretar a tomografia pra mim? Muito obrigada. Sento na minha cadeira presidente pra começar a pensar nas modificações que preciso fazer na tese. Christine, da Holanda, me manda um e-mail perguntando se recebi o artigo modificado que estamos escrevendo juntas. Recebi, mas esqueci de abrir. Passo a tarde toda tentando descobrir como se abre documentos com extensão docx e por que alguém cria um arquivo com essa extensão doida. De noite, o meu Sandwalk me levou até a casa de um amigo que tinha me emprestado um DVD que só verei semana que vem, quando a minha lista de afazeres desencontrados tiver diminuído.


O que mais me espantou hoje foi o que eu disse pra esse meu amigo no telefone: estou saindo pra 'minha caminhada' e levo o teu DVD na tua casa. Me senti um velho que tem um dia regrado, sendo a caminhada um dos itens do dia.

2 comentários:

Carlos Teixeira disse...

Lou, não sei se você já descobriu, mas docx é o formato padrão, normal, do novo Word, que faz parte do Microsoft Office 2007. No site da Microsoft tem um conversor gratuito para quem não tem essa versão poder abrir os arquivos nas versões anteriores do Office.

iglou disse...

Obrigada, Carlos. Já recebi o arquivo em versão doc, mas é bom saber que eu mesma posso converter os arquivos que são produzidos no Office 2007 e no Vista.