quarta-feira, 28 de maio de 2008

Memória e epilepsia

Iván Izquierdo é um cara que dedicou 40 anos de sua carreira ao estudo da memória e tem muito a dizer sobre ela, numa prosa solta, o que prezo muito. Não farei uma resenha do livro sobre como a memória se desfaz, porque as estratégias são muitas. Na verdade, aprendi que a função primordial da memória é esquecer.

Uma surpresa, pra mim, foi descobrir que memória e epilepsia estão intimamente ligadas. Uma crise epiléptica nada mais é do que uma descarga não-controlada no cérebro. Para conter a crise, o corpo se defende matando neurônios ligados ao foco da crise. Com a morte de neurônios, a memória fica comprometida.
Terminado o livro sobre a memória, passei ao primeiro volume de uma estória em quadrinhos, chamada 'Epiléptico'.


Trata-se de uma biografia. David B. é o irmão mais novo de um epiléptico, numa época em que o distúrbio ainda é tabu. O estilo de desenho é bem francês, e até mesmo lembra um pouco Persépolis (também é preto e branco tipo xilogravura e também é autobiográfico, contado por uma criança que amadurece).

Num dado momento, o irmão está tendo três crises convulsivas por dia, e os pais procuram ajuda médica. São encaminhados a um renomado cirurgião que fica enumerando quais as possíveis seqüelas de um erro durante a cirurgia. Se eu errar aqui, seu filho pode ficar cego. Se eu cortar demais pra cá, seu filho pode ficar paralisado etc. Antes de marcarem a cirurgia, o menino epiléptico vê um anúncio de cura macrobiótica e pede para tentarem a macrobiótica antes da cirurgia. A família toda vira macrobiótica, estuda o equilíbrio entre ying e yang e várias doutrinas que se baseiam neste equilíbrio e passa as férias em comunidades macrobióticas.
É uma leitura visceral, porque as imagens de uma criança sobre o que se passa no mundo do irmão epiléptico são muito expressivas. Pena que essas leituras me dão sonhos conturbados e dores de cabeça logo cedo... Mas são fascinantes!

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