quinta-feira, 22 de maio de 2008

Dreaming

"Welcome to Philosophy Talk, the program that questions everything, except your intelligence."

O programa intitulado 'Dreaming' não é típico. O convidado não conseguiu - sabe-se lá por que motivos - chegar à rádio, de modo que Ken e John abriram o programa muito mais pros ouvintes que o normal, e de fato conversaram com os ouvintes, não só agradeceram pela contribuição e depois continuaram suas conversas, ocasionalmente remetendo à fala de um ou outro ouvinte.

Vários aspectos dos sonhos foram levantados: qual a diferença entre sonho e realidade, o que causa os sonhos, como interpretamos os sonhos, por que precisamos dos sonhos e assim adiante.

Um dos ouvintes lembrou um escritor que fazia os seus personagens terem pesadelos depois de comer queijo. Lembrei, imediatamente, da noite quente e cheia de mosquitos, em que fui jantar na churrascaria com os meninos. Comer carne de noite no verão desde então é crime para mim. Às 3 da madrugada eu levantei da cama por causa de um sonho em que as pessoas da minha família morriam e apagavam lentamente, ficando cinza dos pés à cabeça. Havia armas, sangue, tiro na cabeça e um cinza se apoderando da pessoa. De mim também, e apaguei lentamente. Em seguida, tudo recomeçava, mas em outro cenário. Quando estava prestes a morrer pela terceira vez, saí da cama. Bom, posso explicar isso de duas formas: (1) a janta foi pesada; (2) os meninos daqui de casa estavam quase todos viciados num jogo de video game em que é preciso matar zumbis com tiro na cabeça, que eles jogavam na sala. Ah! E já que estamos no campo do sonho biologicamente motivado, lembrei do sonho mais nítido e 'real' que já tive na vida (talvez porque eu me questionasse durante o sonho se aquilo era um sonho, talvez porque a história fosse longa e coerente). Foi depois que coloquei pilhas de livros embaixo dos pés da cama. Com o cérebro mais irrigado, tive um sonho mais parecido com a realidade. Mas, como nem tudo são rosas, a experiência não se repetiu nas noites seguintes. E quando dormi de pernas pra cima no hospital em Bremen, acordava com dor de cabeça.

Uma ouvinte comentou que acredita que os sonhos nos interconectam, e outro ligou pra confirmar essa hipótese através de um exemplo: ele sonhou com um colega de escola, e no dia seguinte, enquanto ele tava sentado no escritório dele, tocou o telefone e era justamente aquele colega de escola, que ele tinha visto a última vez 15 anos atrás. Lembrei de despertar de pesadelos escuros e sufocantes numa época em que eu sabia que o cara pelo qual eu estava apaixonada (mas não era correspondida) estava passando por maus bocados. Acordava do pesadelo pensando nele e pedindo pra ele voltar a dormir, dizendo que tinha só sido um sonho ruim, e voltava a dormir. Era como se eu sonhasse os pesadelos dele.

Outra ouvinte disse que entende que os sonhos não significam em si, mas o que vale é como você se sente em relação a eles. Estou parafraseando: se você acorda perturbado depois de sonhar que mata pessoas violentamente e se lembra desse sonho com um certo grau de horror, então isso diz algo sobre você. Se você acorda de um sonho em que voa e acha o sonho o máximo, então é possível saber outra coisa sobre você. Se você acorda de um sonho em que cai desenfreadamente e acha o sonho legal, você precisa de mais adrenalina na sua vida. Imediatamente me lembrei dos sonhos em que desço ladeiras sinuosas deitada de barriga num skate ou rolemã, pedalo na Caloi 10 pelo mundo com uma galera sorridente, conto estórias geniais prum monte de gente à minha volta e acordo feliz da vida.

Um dos moderadores lembrou que nós, seres humanos, somos significadores compulsivos. Precisamos interpretar e atribuir significado a tudo, queremos dar sentido às coisas que nos afetam. Lembrei de um sonho meu que serviu de consolo pra minha mãe. Eu tinha morado na casa dos meus pais (metaforicamente falando, porque mudamos de casa várias vezes) por 21 anos, e era chegada a hora de eu tomar o meu rumo. Eu não só sairia de casa, como voltaria ao Brasil. Talvez meus pais até tivessem medo que eu me casasse com um certo menino. Pros meus pais, a separação não seria fácil. Mas, como já anunciei, um sonho amenizou o medo do desconhecido. Sonhei que a minha mãe e eu entramos num carro conversível dando risada, esticando braços e pernas, e que eu tinha jogado pra fora um novelo de lã e explicado pra ela que através do fio poderíamos retraçar o caminho. Ah, vale lembrar que ninguém, exceto eu, confiava nas minhas habilidades de motorista na época. Sonhar que eu dirigia o carro foi convenientemente didático: eu era capaz de enfrentar o desconhecido.

Ainda tinha aquela outra ouvinte que contou que tinha ficado cega por um tempo, e que seus sonhos eram visuais do tipo em que era preciso escolher elementos (um monte de pedrinhas coloridas, roupa, xícaras de formas e cores diferentes, ou seja, que demandavam acuidade visual). Como nunca fiquei cega, não pude lembrar de nenhuma experiência semelhante. Hm, vasculhando um pouco mais na memória dos sonhos, lembrei de um sonho que tive quando a Stephanie estava aqui, pedindo café várias vezes por dia. No sonho, eu me convencia de que café preto é gostoso. Na manhã seguinte, não pus nem leite nem açúcar no meu café. Tomei ele quente e preto. E gostei.

"Thank you for listening and thank you for thinking."

Nenhum comentário: