domingo, 4 de maio de 2008

Biografia do Darwin

Estou ocupada com a biografia do Darwin faz um bom tempo: já li 600, faltam ainda 209 páginas. O jovem naturalista passou as primeiras 400 páginas deste romance de Irving Stone dando a volta ao mundo no HMS Beagle. Nas 150 páginas seguintes, ficou sofrendo dores de estômago porque sentia que não podia publicar seus pensamentos sobre a origem das espécies.

Só pra apresentar um panorama, em 1857 as pessoas ainda não estão ligadas que os continentes que hoje são separados por oceanos, já formaram a pangéia. Os distintos cientistas da época acreditam que Deus criou todos os seres vivos exatamente como são agora. Que uma espécie tenha evoluído e se transmutado em outra espécie é uma hipótese anticristã. Que o homem tenha evoluído dos primatas é o cúmulo da heresia. Em suma, Darwin está se sentindo meio Galileo. Não quer ter que capitular diante da autoridade eclesiástica por falta de provas.

Dei as duas aulas da semana passada no PED e o assunto era "o que é dado em neurolingüística". Falei de vários experimentos, experimentei com os alunos e mostrei dados dos meus dois sujeitos afásicos. Os meus dados são de dois tipos: naturalístico e experimental. Naturalístico quer dizer gravar a pessoa numa interação informal, o mais próxima de uma situação normal de conversa. Olhando pra dados deste tipo é que podemos descobrir coisas que nos balançam e sacodem, porque não foram previstas pela teoria de linguagem. Este tipo de dado nos força a lançar hipóteses novas sobre o uso da linguagem. Coudry chama esse tipo de dado de 'dado-achado'. Acontece que esses dados não se repetem, são únicos e peculiares de uma dada pessoa. Se eu quiser verificar se aquele fenômeno que observei é sistemático, aplico experimentos que evocam o fenômeno. Se ele se repetir, tenho em mãos o que Coudry chama de 'dado-evidência'.

Darwin desenterrou umas sementes grandonas em sua propriedade. Estavam embaixo de uma camada grossa de areia. Ele não conseguiu identificar as sementes e pediu ajuda aos seus amigos botânicos. Distribuiu as sementes e olha lá, elas germinaram e nasceram folhagens exóticas, que ele tinha visto nos trópicos.

Queridos alunos, este é um exemplo de dado-achado. Estamos diante de sementes que não são nativas da Inglaterra. Que hipóteses explicariam isso? Darwin sabe que o mundo é mais velho do que prevê a Bíblia e sabe que o que vemos hoje não foi sempre assim. Ele pensa na possibilidade das sementes terem viajado de ilhas tropicais pelo oceano até por exemplo a Inglaterra. A superfície da Terra foi mudando ao longo do tempo e uma camada de areia cobriu as sementes viajantes. Mais tempo passou, ele comprou aquele pedaço de terra e foi cavar um buraco fundo e as desenterrou. Como provar que as sementes vieram pelo mar? Testando sua resistência à água do mar.

Montou um experimento em que jogava sementes de nabos, beterrabas, cenouras e outros vegetais em tinas, barris e bacias de água salgada. Algumas sementes não sobreviveram, mas outras brotaram, como anunciavam seus sete filhos: papai, papai, os nabos estão brotando, podemos plantar mais coisas na água?

Este é um exemplo de dado-evidência, em que você coleta dados de acordo com uma hipótese pré-formulada.

O que eu não mencionei na aula é que é possível que um experimento comprove uma hipótese, mas isso ainda não garante que a hipótese corresponda aos fatos.

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