sexta-feira, 25 de janeiro de 2008

Names hold the keys

Os títulos das coisas devem dizer muito sobre as obras que encabeçam. Devem sintetizar a obra, conduzindo ou quebrando as expectativas do público. Um exemplo de título que conduz o público a interpretar a obra é Dogville, pois o filme toma a cidade de Dogville quase como personagem. Um exemplo de título que intriga o observador é dado no romance de Salman Rushdie, O chão que ela pisa. Um dos personagens é fotógrafo, e um dia ele vai a uma competição de pipas. O céu está um festival de cores e formas. O fotógrafo aponta a sua lente para o céu quando o chão começa a tremer. Um terremoto assusta as pessoas, que saem correndo desorganizadamente, largando suas linhas, abandonando suas pipas. Ele bate a foto das pipas e chama a fotografia de O terremoto. Viu? Títulos desse naipe precisam da história, precisam ser contextualizados, porque tomam um acontecimento secundário de um processo como título da obra.

Existe uma outra categoria de títulos: aqueles que enfeitam a obra, que atraem atenção, que são engraçadinhos. Vamos do mundo das artes para o universo acadêmico, mais precisamente, os títulos de teses que ganharam o prêmio Capes ano passado. Na categoria Música/ Artes, ganhou a tese com o seguinte título: Poéticas líquidas: A água na arte contemporânea. Uau, poéticas líquidas, que pegajoso! Na categoria Letras/ Lingüística, ganhou a tese intitulada: A porosidade poética de Riobaldo, o cerzidor: ritmo, transcendência e experiência estética em Grande sertão: Veredas. Porosidade poética, que dureza...
Não quero discutir que Música e Artes, assim como Letras e Lingüística formam uma categoria, ao passo que há cinco categorias diferentes para Engenharia e quatro para Medicina. Vamos sair das humanas e dar um passo em direção às exatas, entrando no campo da Astronomia/ Física. O título da tese premiada é: Raman spetroscopy of Nanographites. Pela preposição, percebemos que o título não está em português, mas inglês. Será que, pra ganhar o prêmio Capes, uma tese das humanas precisa ter um título todo metaforizado e um título das exatas precisa estar em inglês?

A última categoria de títulos é aquela que toma uma frase que foi proferida ao longo de todo o texto, mas que não é representativa para a obra como um todo. A culpa é do Fidel! é um desses títulos. O filme é muito bom, o título também, mas um não é referência para o outro. O filme é contado através da perspectiva de uma guriazinha francesa de 9 anos que tenta entender aspectos da época politicamente conturbada que vivencia. Num dado momento, conclui que a causa da desgraça da babá cubana foi causada por Fidel. O diálogo das duas é muito pano de fundo. Muito mais recorrentes são as tentativas da pequena Anna de compreender o significado da palavra solidariedade. Mas o título ficou A culpa é do Fidel! Bom, voltemos ao mundinho acadêmico. A minha dissertação de mestrado também carrega no título uma frase proferida pela minha sujeita Raquel. Tem o título técnico, depois esse frase, que é pra quebrar a tensão prepositiva: Preposições ligadas a verbos na fala de uma criança em processo de aquisição de linguagem - ou - Vamo de a pé no carro do vovô? Esse título me rendeu uma entrevista pro Jornal da Unicamp.

E tem mais: o título deste post é parte do refrão de uma música do Morphine, chamada Souvenir. Mas é do tipo 1, resumindo o conteúdo do texto.

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