domingo, 21 de outubro de 2007

Julgamento de gramaticalidade: totalmente afrodisíaco

Na Lingüística existem 3 principais correntes teóricas: estruturalismo, funcionalismo e gerativismo. Poucos lingüistas se auto-intitulam estruturalistas, restam então os adeptos das duas outras teorias. Os funcionalistas investigam a função da linguagem em uso e analisam o que foi dito. Os gerativistas acreditam na soberania da forma e na autonomia da sintaxe. Para fins de pesquisa, inventam sentenças em suas cabeças e as mostram pra alguns falantes e perguntam se as frases são boas. Dizem estarem se beneficiando da "intuição do falante" quando apresentam suas frases em testes de julgamento de gramaticalidade.

Fui vítima de um gerativista que "mexe com advérbio". Por duas horas ele me fez traduzir pro alemão e avaliar a aceitabilidade de sentenças como:

Geralmente os homens primitivos costumavam caçar normalmente de manhã.
Normalmente os homens primitivos provavelmente caçavam de manhã.
Possivelmente os homens primitivos certamente caçavam de manhã.

Depois da segunda sentença eu já achei que ele tava de sacanagem comigo. Depois da décima sentença, saquei que ele não estava considerando o significado (semântica) das sentenças dele. Depois da primeira hora eu avisei que o meu cérebro estava entrando em colapso. No fim das contas, ele me disse que eu tinha um dialeto sintático diferente dos outros falantes que ele entrevistou. Maravilha!

Fiquei brava com esses lingüistas que não investigam o se diz, mas o que eles acham ser possível. Fiquei pensando na probabilidade de alguém em algum momento proferir sentenças como as do moço que me torturou com os julgamentos de gramaticalidade dele.
Percebi que esses caras não se preocupam com o sentido das sentenças, só com a forma. Pra ilustrar isso, lá vai que eu soube do Renato, que participou de um evento de sitaxe gerativa. Um gerativista, que estuda a falta de sentido da preposição "de", afirma que caixa de bombom e caixa bombom são equivalentes. E que também não há diferença entre caixa de bombom (que pode não conter bombons) e caixa com bombom (que necessariamente tem bombons em seu interior, mesmo que não seja uma caixa de bombom).
Mas será que são só os gerativistas que inventam sentenças esdrúxulas?

Eis que, numa tarde de sábado e muito sol, enquanto eu tava deitada na rede, passa um carro de som fazendo propaganda para uma tal Feira da Primavera. O carro passou devagar e o som era muito alto, de forma que tive tempo suficiente para decorar algumas sentenças impressionantemente bizarras:

além de comprar tudo com BOM GOSTO,
você PARTICIPA DOS BRINDES
E ATÉ BARRAS DE OURO!
LEMBRE-SE!
Você é nosso convidado para tomar um delicioso chá de frutas TOTALMENTE AFRODISÍACO.


Duvido que alguém que ouviu o carro de som passando tenha estranhado qualquer uma das coisas que eu grafei em letras grandes. A vizinhança ouviu, processou e entendeu. Pronto, acabou. Fez sentido, parte pra outra, não volta pra analisar qualquer parte do discurso.
Mas eu ouvi essas frases tantas vezes, que passei a analisá-las.

Me parece difícil interpretar o ato de compra como sendo de 'bom gosto'. Ou alguém tem ou não tem bom gosto, mesmo que isso seja discutível, mas não se executa ações com bom gosto... Como' participamos' de brindes? Não consigo imaginar uma situação em que seres humanos participem de objetos inanimados. Qual é a relação entre os brindes e as barras de ouro? O que deve ser lembrado, que não foi mencionado antes? Um chá pode ser parcialmente afrodisíaco?

Voltemos aos testes de julgamento de gramaticalidade do gerativista. Quando um falante é convocado a analisar sentenças escritas e dar um parecer sobre sua boa-formação, ele costuma se orientar pelo que é aceitável na escrita, e talvez dê mais relevância à forma que ao sentido das frases que analisa. O processamento da linguagem escrita é diferente do processamento da linguagem oral. Um exemplo é o holandês que eu entendia quando falavam comigo, porque fazia sentido. Mas eu sou incapaz de montar uma frase em holandês, porque eu não sei qual é a posição dos constituintes. Enquanto eu ouvia holandês, eu não analisava, eu entendia e pronto. Talvez coisa semelhante aconteça com o texto do carro de som: a gente entende e não acha estranho quando ouve, porque não analisa as frases e a relação entre elas. A gente entende e pronto, basta.

Existe um abismo entre fala e escrita, e a maioria das pessoas pensa que fala como escreve: de forma linear, clara e racionalmente progressiva. Mas este não é o caso. Só as gravações que eu fiz das histórias do meu último experimento já mostram que o planejameto da fala e da escrita são completamente diferentes.

Nenhum comentário: